Desconfio que desperto alguma curiosidade aos meus colegas de mestrado.
Assim como eles a mim.
Só que até agora, as conversas têm sido bastante contidas.
Mas hoje, fui alvo de um interrogatório (literalmente) sobre relações amorosas, na minha perspectiva.
Não sou especialista no assunto, de todo.
Aliás, as minhas ideias sobre o que o Amor é, referem-se ao que eu quero ter, e baseiam-se em experiências anteriores.
Não que sejam imensas, mas é sempre assim.
Tudo o que achamos que é melhor para nos, ou ideal, ou perfeito fundamenta-se no que tivemos, ou não tivemos e gostavamos de ter tido.
Como tudo na vida. Somos fruto das nossas experiências de vida, dizia-me o professor de Psicologia no 12º ano.
Se hoje sei que não quero alguem indeciso, talvez se deva ao facto de ter recebido a minha primeira carta de amor de alguém que não sabia de quem mais gostava, de mim ou de uma colega de turma.
E acabou por endereçar a carta às duas.
Se também sei que anseio ser deslumbrada apenas por palavras, por alguém que consiga se expressar de modo inigual, também se deve a uma experiência anterior.
Aquela em que me elogiaram pela negativa com palavras tao rudes e bruscas que ainda hoje me assombram o pensamento.
Na verdade, posso não saber o que quero de alguém.
Mas sei o que não quero.
E daí criei um ideal. Um amor sem rosto.
Essa pessoa pode nem existir, pode até nunca aparecer.
Posso até apaixonar-me por quem não tem nada a ver com a pessoa que esbocei.
E também posso encontrá-lo exactamente como sonhei ao virar de uma esquina numa rua movimentada.
Mas e se nunca tivermos tido essas experiências?
E se fossemos privados de poder entrelaçar a nossa mao na de quem nos acelera o coração, ou de roubar um beijo num impulso de saudade?
Ridiculo de pensar. Mas na verdade, há quem nunca tenha vivido isso.
Imposições familares, sociais, culturais, seja o que for.
Há quem nem sequer tenha podido abraçar um amigo quando tinha vontade, somente porque não era socialmente aceite.
E devido a esse enorme vinculo social e cultural, acabam por ser entregues a alguém com base na sorte, na compatibilidade de horóscopos, nas relações familiares, no que seja, quando chegam à idade certa.
Nao consigo sequer imaginar.
As expectativas serão demasiado altas ou demasiado baixas?
Limitamo-nos a aceitar o que nos é dado? Sentimos o verdadeiro amor e paixão?
Partilhar uma vida inteira com quem não escolhemos ou sequer conhecemos...
Conseguimos ser felizes?
Teremos a vida facilitada porque não se tem de procurar, ou dificultada porque não se pode procurar?
Há dias em que acordámos sós e queixamo-nos da infelicidade de ainda não termos encontrado a nossa pessoa, o elemento que nos completa.
Mas nesses dias, não vemos que somos afortunados, porque somos livres de procurar durante toda a nossa vida, sem ter que nos contentar com menos.
Que grande chicotada que eu levei hoje.